O pôr-do-sol

12/03/2016

Tenho tentando relaxar. Me sentir bem. Calma. Leve. Devo confessar que não tem dado muito certo, mas não há muito mais que eu possa fazer, afinal de contas, estou me esforçando e tentando fazer dar certo.

Apenas uma coisa funcionou até agora. Observar o céu. Principalmente durante o nascer do sol e pôr-do-sol. 

Coloco meus fones, ligo na playlist “paz” que tenho no meu celular, se possível eu sento, senão apenas fico de pé mesmo, observando.

“A beleza está nas pequenas coisas” eles dizem, “observe as coisas mais simples” eles dizem... Algo tão maravilhoso não é pequeno e nem simples. É um espetáculo grandioso e vale a pena ser assistido. É como se por um momento todas as minhas energias fossem renovadas.


E depois do pôr-do-sol, o céu escurece, mas se enche de estrelas, e o espetáculo continua. Ele nunca para.




O guardador de rebanhos


Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
-Fernando Pessoa
 

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